22.4.07

Física e metafísica

Um editor da Antiguidade chamado Andrômaco de Rodes organizou em uma estante os livros do Aristóteles. Na verdade eram papiros. Nessa estante, após os papiros de física, ele colocou papiros que questionavam o Ser e as causas primeiras das coisas.

A palavra grega física significa natureza e a palavra metafísica significa além da física.

Assim, a palavra metafísica remete à cena em que os papiros do "Ser e das causas primeiras" são arrumados logo após os papiros da "Natureza" na estante desse antigo livreiro.

A palavra metafísica então não tem nada de sofisticado. Originou-se da mera organização de prateleiras!

Porém os questionamentos tratados pela metafísica são de alta indagação. Inclusive, para alguns estudiosos, o opúsculo Substâncias Separadas, de São Tomás de Aquino é o mais alto produto especulativo e metafísico já produzido pelo Ocidente.

Como vencer um debate sem precisar ter razão

Arthur Schopenhauer descreve 38 maneiras de espancar a verdade para glorificar a mentira.

Ao longo do ano, postarei esses ardis.

Para os mais curiosos, uma dica de aquisição: Olavo de Carvalho traduziu essa obra de Schopenhauer, que foi editada pela TOPBOOKS.

A falácia "post hoc ergo propter hoc"

Falácia é um raciocínio errado.

E "post hoc ergo propter hoc" quer dizer: depois disso, logo por causa disso.

Em outras palavras: se um evento sucede ao outro, implica que o primeiro evento é causa do segundo evento.

Exemplificando:

  • Chá de quebra-pedra é bom para cálculos renais. Tomei e dois dias depois expeli a pedra.
  • Anteontem fui mordido por um cão e hoje estou com febre. Só posso estar doente por causa dessa mordida.
  • Toda vez que uso o boné do meu pai, o meu time ganha.

Pelo derradeiro exemplo, vê-se que essa falácia também alicerça várias superstições.

Aproveito a ocasião e descrevo uma falácia assemelhada: "non sequitor" (não se segue, ou "não tem nada a ver"). Uma conclusão nada tem a ver com a premissa.

Exemplificando de novo:

  • Venceremos, pois Deus é bom. Concedamos que Deus exista e que seja bom. Porém Ele não está necessariamente do nosso lado. Eis que os nossos adversários podem dizer a mesma coisa!

Antídoto: Esclareça que fatos sucessivos não formam necessariamente o binômio causa-efeito. Podem ser apenas caso de coincidência.

Fonte de inspiração: http://www.pucrs.br/gpt/falacias.php

O instante

A palavra instante deriva do latim instans, que pode significar: o que aperta, o que insta, o que persegue, iminente, próximo.

Em seu sentido filosófico, o instante pode referir-se à duração muito curta que a consciência capta como um todo.

Tradicionalmente, o instante foi definido como ponto determinado e indivisível da duração.

Para Platão, o instante é a inserção súbita da eternidade no tempo. Assim, ele coloca a dimensão original do instante numa esfera sobrenatural, no mundo das idéias. Porém o seu desdobramento ocorre no mundo físico.

Já Tomás de Aquino afirma que o instante não é parte do tempo. É o indivisível do tempo. No tempo são duas coisas, o passado e o futuro. Ambas são medidas pelo mesmo instante, pois o mesmo instante é princípio do futuro e fim do passado.

E Santo Agostinho entende que o tempo serve para medir o movimento dos corpos.Porém o instante pertence à esfera da eternidade, pois somente nela há um presente incorruptível. Já que o instante seria um presente perfeito.

Este post foi baseado na leitura do artigo " O INSTANTE SEGUNDO SÃO TOMÁS DE AQUINO", escrito por Paulo Faitanin, da Universidade Federal Fluminense.

7.4.07

O axioma e o dogma

Natália Bebiano é uma autora excepcional. Ela escreveu um livro que abordava vários temas, dentre eles um estudo sintético sobre o axioma. Eu o li há dois anos e verdadeiramente tomei um banho de luz.

Comecemos o assunto por uma lavra aristotélica:

'" Nem tudo pode ser provado, já que, de outra maneira, a cadeia de provas seria interminável. Como temos de começar nalgum sítio, começamos com coisas que admitimos, mas que são indemonstráveis."

Considero essa citação digna de ser dita às crianças. Elas costumeiramente encadeiam aos adultos questionamentos recheados de porquês.

Outro momento adequado para invocar essa lavra ocorre quando alunos intrigados pressionam seus mestres com perguntas, que exigem, como resposta, a exibição de causas primeiras.

Mais luz com Natália:

"Axioma significa originalmente dignidade. Atualmente, também significa o que é digno de ser estimado, acreditado ou valorado. Em outras palavras: Axioma é um ponto de partida que, por sua dignidade, deve considerar-se verdadeiro. Uma vez enunciado e entendido, detém em si um imperativo que obriga ao seu assentimento."

Assim, posso inferir que cada ciência tem seu conjunto de axiomas ou "pontos de partida" indemonstráveis.

Porém e contra a indemonstrabilidade, há estudiosos de critérios de verdade que se recusam a predicar os axiomas como verdadeiros. Eles entendem que um sistema lógico-dedutivo pode ser comparado a um jogo em que os axiomas são somente as regras. E, pelo critério da navalha de Ockham, esses estudiosos tendem a estar certos!

E o dogma?

Segundo o Wikipédia:

"Um dogma, no campo filosófico, é uma crença/doutrina imposta, que não admite contestação. No campo religioso é uma verdade divina, revelada e acatada pelos fiéis. No catolicismo os dogmas surgem das Escrituras e da autoridade da Igreja Católica"

Corolário: ciência e fé são fundamentadas em princípios indemonstráveis.

Exemplos de axioma/dogma/regra de jogo:

1-Não matarás

2-Deus criou todas as coisas

Essas duas regras foram aplicadas em 1376 pelo dominicano Nicolau Eymerich em seu "Manual do Inquisidor":

Caso 1:Uma pessoa é declarada herege porque ofendeu a Deus. Logo ela será queimada pois o que a mata é o fogo e não um cristão.

Caso 2:Uma pessoa zombou do Senhor, debochou do Seu amor e rendeu homenagens ao Danado. Logo, há razões suficientes para que essa pessoa e seus herdeiros não usufruam mais das criações divinas. Nada mais reto do que confiscar/expropriar seus bens em favor do Estado ou da Igreja.

19.3.07

ESTÉTICA

Mário Quintana assim encontra o Belo:

“Nada, no mundo, é, por si mesmo, feio.

Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,

Palpita sempre neles o divino anseio

Da Beleza suprema...”

Estética é uma palavra grega que significa percepção ou sensação. Trata-se de ciência, tornada autônoma da Filosofia desde 1750. Ela estuda o Belo e as Artes.

O poeta Antônio Gedeão se pergunta por que as coisas belas deixam cicatrizes na memoria dos homens e por que motivo são belas? E para quê?

Já a matemática portuguesa Natália Bebiano diz que há humanos que consideram a matemática bela e que Einstein usava a beleza como critério de verdade de suas teorias.

E Poincaré assim disse: " O cientista não estuda a natureza porque tal é útil. Estuda-a porque tem prazer nisso; e tem prazer nisso porque ela é bela. Se a natureza não fosse bela, não valeria a pena o conhecimento, nem a vida valeria a pena ser vivida..."

Novamente Natália Bebiano: " A arte existe, não para ser útil, mas para a honra do espírito humano. Para nos reconciliar com os limites da nossa precariedade: a morte, o mal, a guerra...Até ao impossível."

O autor espera ter despertado o interesse do leitor sobre o tema estética.

12.2.07

Contarei sua história muito tempo depois de você desaparecer

Aristóteles, nascido em Estagira em 384 a. C., era filho do médico Nicômaco. Seu pai tratava do rei macedônio Amintas, avô de Alexandre, o Grande.

Aos 16 ou 17 anos, foi estudar na Academia de Platâo, apesar do aviso que havia na porta dessa escola: " Só adentre quem souber Geometria".

Mais tarde, saiu da academia e foi preceptor de Alexandre, o Grande.

De volta a Atenas, criou sua própria escola no Monte Licínio, que ficou conhecida como Liceu. Lá, ensinava aos discípulos, caminhando ao ar livre ou sob as árvores do monte. Seus alunos foram alcunhados de peripatéticos (os que passeiam).

Para os alunos da escola, havia a divulgação do conhecimento esotérico (modernamente seriam as monografias, teses, papers).

E para o público em geral, havia a divulgação do conhecimento exotérico (modernamente seriam as revistas de divulgação científica).

Por problemas políticos, abandonou sua escola em 323 a. C. e faleceu um ano depois.

Roma locuta, causa finita est.

Roma falou, a causa está terminada.

Os argumentos de autoridade devem servir como ponto de partida das discussões. As opiniões de doutores, de especialistas, de pessoas com muita experiência são úteis demais para formarmos nossas primeiras impressões sobre matéria nova. Ao contemplarmos um novo problema, de imediato, podemos consultar autoridades no assunto. Enfeitamos nossas premissas com essas consultas e, por dialética ou por silogismo, avançamos o cálculo de predicados.

Exemplo de cálculo de predicados:

  • Todo homem é mortal.
  • Sócrates é homem.
  • Logo, Sócrates é mortal.

Infelizmente, por despreparo intelectual, muitos são levados e mantidos em erro por um argumento falacioso chamado de " falácia de autoridade".Essa falácia engana nosso juízo com a seguinte fórmula sugestiva:

" A explicação/o procedimento para tal situação só pode ser assim , já que essa é a opinião do doutor Tal. Além disso, ele sabe o que diz e, se não estivesse correto, não estaria onde hoje está! E quem é você para opinar o contrário?"

Essa fórmula carrega o conceito de autoridade e o conceito de "instância infalível". E é tão poderosa, que a pessoa nem raciocina mais. Ela fica convencida por um argumento aparentemente irresistível.

Portanto e por amor à verdade, peço ao leitor que faça o bom uso dos argumentos de autoridade. Use-os no início das discussões e não com o objetivo de encerrá-las.

24.11.06

A razão e o argumento irresistível

A ele, ninguém poderá recusar a própria adesão.

"Pois diante do fundamento irresistível, a mente se dobra necessariamente, tal como o faz a vontade diante do poder irresistível. O fundamento último não pode mais ser questionado, assim como o poder último deve ser obedecido sem questionamentos. Quem resiste ao primeiro se põe fora da comunidade das pessoas racionais, assim como quem se rebela contra o segundo se põe fora da comunidade das pessoas justas ou boas."

Norberto Bobbio

Pois bem, Bobbio foi um dos mais famosos humanistas de nosso tempo. E ao aplicar a razão humana a temas sociais, ele encontrou o conforto da coerência porque existe o pacto entre os humanos de que não pode haver a quebra das regras lógicas. Nessa esteira, posso dizer que sempre derrotamos teses antagônicas quando exibimos a corrupção de alguma regra lógica.

A razão humana, desenvolvida ao longo das sucessivas gerações de hominídeos e assemelhados, funciona como um software que roda em nosso encéfalo.

Há várias regras lógicas como o famoso princípio da não contradição: é impossível que algo seja e não seja ao mesmo tempo.

Mas, quando aplicamos a razão humana a fenômenos naturais, precisamos ser mais cautelosos. A física quântica, por exemplo, fere mortalmente as regras lógicas humanas. Por exemplo, a luz pode ser matéria e energia simultaneamente.

Até os fenômenos de transporte de energia, como as ondas de telecomunicações, estão além da nossa natural compreensão.

Pois é. A Realidade debocha da lógica humana.

Immanoel Kant escreveu um livro chamado Crítica da Razão Pura, em que afirma ser impossível para a mente humana apreender toda a Realidade com o intuito de descobrir a razão de ser, as causas primeiras das coisas. Se esse juízo for verdadeiro, a Metafísica desce à cova.

E para piorar a situação da Metafísica, os psicólogos evolucionistas afirmam que nosso raciocínio foi desenvolvido para otimizar a busca do prazer (comida, sexo) e a fuga da dor. Afirmam ainda que fomos desenhados apenas para sobreviver nas savanas africanas. E que não fomos desenhados para responder a todos os questionamentos que nosso encéfalo elabora.

O advento da razão humana nos trouxe méritos (domínio de parte do ecossistema) e deméritos(consciência de não saber o que vai acontecer daqui a pouco e o estresse causado pela não explicação razoável da Realidade apreendida).

Contemplemos agora os questionamentos de um ser menos racional do que nós: Um cão parece pouco se importar com o porvir e a sua Realidade parece não o importunar tanto. Pena que ele pouco domine os recursos materiais e imateriais em seu entorno!

Nota de rodapé:

  1. Segundo Carlos Fontes, Metafíca é o termo filosófico que se aplica a um saber que procura penetrar no que está "além" ou "por detrás" do que nos é dado pela experiência imediata.

23.11.06

O demiurgo platônico

Segundo Platão, no princípio do Universo havia a matéria caótica e disforme. Havia também as idéias, que são perfeitas. Havia o espaço e havia o Demiurgo( Deus).

O Demiurgo, entristecido com a desordem, resolve copiar as idéias na matéria. Desse modo, Ele gera os objetos que formam a nossa Realidade.

Assim e para sempre, os objetos imperfeitos(constiuídos da matéria e de cópias das idéias) ficam separados das perfeitas idéias.

Podemos inferir, desse modelo platônico, que as cópias das perfeitas idéias estão incrustadas em nós. Com o tempo, nós nos lembramos das idéias! E a descoberta de algo novo é apenas o relembrar do que já se sabia a priori.

Esse é o momento de pedir ao leitor que se lembre, não das perfeitas idéias, mas das pessoas de sua rede social que são demiurgas platônicas.

Melhor esclarecendo...O termo " demiurgo platônico", atualmente, possui também um significado pejorativo. Ele designa as pessoas que têm a disposição de parecer sempre certas, assenhoradas da Verdade. Pessoas que tudo sabem e que a tudo explicam. Além disso, quando confrontadas com seus erros, fazem cara de paisagem.

17.11.06

Aqui chegaste, daqui não passarás. Jó 38:11

Topoi é uma palavra grega que quer dizer lugar. E em português temos a palavra topologia(estudo do relevo) e tópica, estudo do terreno em que os raciocínios são edificados. Daí temos expressões como: em primeiro lugar ..., em segundo lugar ...

Já a expressão lugar comum é usada quando alguém utiliza, para escorar uma opinião, um argumento muito conhecido.

Digo ainda que princípio é o ponto de partida de um raciocínio.

A partir dessas preliminares, sinto-me à vontade para argumentar e declarar o seguinte princípio:

"O excesso de quantidade muda a qualidade".

Exemplo do princípio:

"Quanto mais se aquece a água, tanto mais ela esquenta. Esse excesso de energia térmica, de repente, muda a qualidade da água: ela deixa de ser líquida e vira vapor."

Outro exemplo:

"A gente estuda um assunto, estuda, estuda e, de repente, aprende o
assunto. A qualidade muda, pois antes éramos ignorantes e agora
sabemos o assunto."

Pois bem, fazendo as devidas mudanças, vamos aplicar esse princípio à encefalização animal.

Ao longo das eras geológicas, apareceram animais cada vez mais complexos, com sistema nervoso cada vez mais sofisticado e o número de neurônios e de suas conexões foram aumentando exponencialmente.

Podemos destacar os mamíferos em geral e os primatas em particular como exemplos de complexidade encefálica. São animais que passaram a ostentar caixas cranianas cada vez maiores e com número crescente de ligações neuronais. E na nossa espécie, a caixa craniana e as conexões neuronais aumentaram tanto, que ocorreu mudança na qualidade da inteligência. Assim, apareceu a inteligência humana.

Ilustrando de outro jeito: ajuntemos e compactemos uma porção de urânio radioativo e nada acontece. Continuando a ajuntar e a compactar e nada acontece. Mas se chega a um ponto da experiência em que, ao mínimo acréscimo de massa(conhecido por massa crítica), ocorre uma explosão nuclear. Se fosse possível, poderíamos ir compactando neurônios e aumentando as ligações entre eles. Chegaríamos a um ponto em que surgiria uma inteligência de outra qualidade.

Ainda sobre a caixa craniana de nossa espécie posso dizer que ela já atingiu o tamanho máximo, limitado pelo canal do parto. Crianças cabeçudas simplesmente morriam no parto pleistocênico. Não havia cesária. Mesmo assim, os bebês de nossa espécie nascem com a cabeça grande, no limite da dilatação! Eis a razão de os partos humanos serem tão dolorosos para as mães.

Desse modo, parece que a nossa inteligência está limitada pelo tamanho do crânio e pela concentração de neurônios e de suas ligações.

Por outro lado, a cesária faria romper o limite do tamanho craniano. Isso me faz lembrar que há bulldogs que só nascem por cesária, devido a suas grandes cabeças. São, portanto, inviáveis em ambientes naturais.

Uma questão costuma levar a outra. Pois qual seria o tamanho mínimo da caixa craniana e da concentração neuronal para que fosse possível o próximo salto qualitativo de inteligência?

E para concluir o post, caro leitor, digo-lhe que, por amor à verdade e pela vontade de trazê-la a luz, estou obrigado a alertá-lo de que a argumentação foi alicerçada em um princípio que talvez não se aplique à encefalização animal.

Se for esse o caso, o leitor estará diante de uma falácia. Restando a este escrivinhador o veemente pedido de perdão.

Notas de rodapé:

    1. Falácia é uma argumentação que leva a erro o interlocutor. Faz com que ele tome o falso como verdadeiro.
    2. Devemos tomar muito cuidado com os exemplos(metáforas), pois podem ser ilícitos.
    3. O falso e a mentira podem seguir por muitos caminhos(Schopenhauer descreveu 38 vias), porém a verdade costuma seguir por apenas um sendero e costuma estar sempre em desvantagem.
    4. Convido o leitor a refazer a argumentação do post utilizando as expressões topológicas em primeiro lugar, em segundo lugar e assim por diante.

14.11.06

A Criação de Deus

Em latim, alienus significa outro. E em português temos as seguintes palavras:

alheio (outro/externo),

alienar (externalizar ou perder a propriedade de um bem para outro, por venda ou por doação),

alienígena (gerado no exterior, pode ser um argentino, um americano ou até um marciano).

E temos também a palavra alienação, criada pelo filósofo alemão Ludwig Feuerbach.

Feuerbach investigou como as religiões se formam. Dentre várias questões de alta indagação, o filósofo quis saber como os seres humanos sentem necessidade de oferecer uma explicação para a origem e a finalidade do mundo.

Marilena Chaui relata o estudo desse filósofo:

"Ao buscar essa explicação, os humanos projetam fora de si um ser superior dotado das qualidades que julgam as melhores: inteligência, vontade livre, bondade, justiça, beleza, mas as fazem existir nesse ser supremo como superlativas, isto é, ele é onisciente e onipotente, sabe tudo, faz tudo, pode tudo. Pouco a pouco, os humanos se esquecem de que foram os criadores desse ser e passam a acreditar no inverso, ou seja, que esse ser foi quem os criou e os governa. Passam a adorá-lo, prestar-lhe culto, temê-lo. Não se reconhecem nesse Outro que criaram."

Os homens assim, se alienam e Feuerbach designou esse fato com o nome de alienação.

Mais uma vez, Marilena Chaui, iluminada por Feuerbach, ensina que:

"a alienação é o fenômeno pelo qual os homens criam ou produzem alguma coisa, dão independência a essa criatura como se ela existisse por si mesma e em si mesma, deixam-se governar por ela como se ela tivesse poder em si e por si mesma, não mais se reconhecem na obra que criaram, fazendo-a um ser-outro, separado dos homens, superior a eles e com poder sobre eles."

Corolário (conseqüência imediata de uma argumentação supostamente válida): O Homem a Deus criou e se esqueceu do fato ao longo das gerações.

Deixo ao leitor a seguinte questão: "Quais bens os homens necessitam doar(alienar) a uma abstração para ela tornar-se deus? "

Notas de rodapé:

  1. O post foi inspirado na leitura e parafraseado/copiado em parte do livro Convite à Filosofia, de Marilena Chaui.
  2. Caro leitor, lembre-se que parafrasear é reproduzir as idéias de um texto, dando-lhe redação pessoal.
  3. Chamo de bem tudo aquilo que satisfaz as necessidades materiais e imateriais dos homens.

9.11.06

A fábula do escorpião e do sapo

Segundo o Wikipédia,

"A fábula é uma narrativa alegórica cujos personagens são geralmente animais e cujo desenlace reflete uma lição moral. A temática é variada e contempla tópicos como a vitória da fraqueza sobre a força, da bondade sobre a astúcia e a derrota de presunçosos."

Passemos à narrativa:

Era uma vez um escorpião desejoso de praticar o bem. Como não era bem visto pela comunidade local, resolveu ir viver do outro lado do rio. Lá, poderia exercitar seu altrísmo sem desconfianças.

Mas ele não sabia nadar e precisava atravessar de uma margem para a outra. E sua espécie ainda não havia acumulado o conhecimento náutico suficiente para construir um barco viável para fazer a travessia.

Então resolve pedir carona nas costas de um sapo. Vai lá conversar com ele para expor seu pleito.

O sapo o ouve atentamente. Pensa que o escorpião o está confundindo com um burro e declara:

- Senhor escorpião, não posso dar-lhe carona em minhas costas porque durante a travessia o senhor vai me ferroar.

O escorpião, leitor assíduo de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, replica imediatamente:

- Senhor sapo, eu jamais o ferroaria na travessia, pois ao fazê-lo, o senhor afundaria e eu morreria afogado.

Realmente, sapo não é burro mas é batráquio.

Pois não é que o sapo acatou o arrazoado do escorpião, reviu sua opinião e resolveu dar a carona!

Porém, em dado momento da travessia, o sapo sentir penetrar profundamente o agulhão em sua carne sapal.

E, já se debatendo, ainda teve tempo de perplexamente perguntar ao escorpião:

- Mas por quê?

E, antes da submersão, ouviu a seguinte resposta escorpiônica:

- É algo acima de mim, fora de meu controle, é de minha natureza!

6.11.06

A Navalha de Ockham

Guilherme de Ockham parece ter sido o último dos grandes pensadores medievais e deixou uma importante contribuição para a investigação científica.

Vejamos essa contribuição:

"Diante de duas teorias que explicam um fato, devemos eleger a teoria que exige menos pressupostos."

Pois parece razoável dizer que:

"quanto mais pressupostos uma teoria necessitar, tanto maior é a possibilidade de encontrarmos algum pressuposto falso, que macule a teoria. Não se trata de descartar a teoria mais difícil ou mais difícil de ser entendida mas, usando sempre o bom senso, devemos simpatizar mais com a teoria que tem menos pressupostos. "

Parece apropriado chamar essa contribuição de navalha, já que o instrumento nos remete à idéia de corte de pressupostos desnecessários.

Podemos até aplicar a navalha quando estamos diante de fenômenos estranhos e sujeitos a explicações paronormais.

Então vamos logo a um exemplo de aplicação da navalha de Ockham: Certa mãe dizia à filha que tal vizinha tinha o olho gordo e o toque da morte pois, ao tocar as plantas, essas secavam e morriam de um dia para o outro. Um dia, a vizinha adentrou à casa, tocou uma planta e a filha ficou apreensiva. Assim que pôde, relatou o ocorrido à mãe. Pois não é que no outro dia a planta estava completamente seca. E então, qual é a explicação?

Tese 1: Há pessoas que têm o poder de secar plantas quando as tocam.

Tese 2: A mãe, para mostrar que estava certa quanto aos malefícios da vizinha, enganou a filha ao despejar algum produto nocivo(mistura de vinagre com sal) no pé da planta.

A tese 1 implica na solução de vários questionamentos para ser bem defendida. Já a defesa da tese 2 necessita apenas questionar a ética materna.

Aplicando a navalha, ficamos com a econômica tese 2.

3.11.06

O Asno de Buridan

Ouvi falar pela primeira vez desse asno no site Primeira Leitura, escrito pelo Reinaldo Azevedo. Já esse Jean Buridan foi um importante filósofo medieval.

Ademais, encontrei no sítio Wikipédia a seguinte citação:

"O paradoxo conhecido como o asno de Buridan não foi originado pelo próprio Buridan. É encontrado na obra De Caelo, de Aristóteles, onde o autor pergunta como um cão diante de duas refeições igualmente tentadoras poderia racionalmente escolher entre elas.

Buridan em nenhum momento discute este problema específico mas sua relevância é que ele defende um determinismo moral pelo qual, salvo por ignorância ou impedimento, um ser humano diante de cursos alternativos de ação deve sempre escolher o maior bem. Buridan defendia que a escolha devia ser adiada até que se tivesse mais informação sobre o resultado de cada ação possível. Escritores posteriores satirizaram este ponto de vista imaginando um burro que, diante de dois montes de feno igualmente acessíveis e apetitosos, deveria deter-se enquanto pondera por uma decisão."

Ora, ora, esse asno/burro poderia até morrer de fome diante dos dois montes de feno tal a sua contundente indecisão.

Pois bem, mutatis mutandis(fazendo as devidas mudanças), há pessoas que são muito indecisas. Esperam em demasia para fazer a melhor escolha. Esperam encontrar uma vantagem para a escolha final. Mas a vantagem não aparece...

Essa questão filosófica é muito interessante pois, todo dia, tomamos várias decisões e às vezes precisamos ser rápidos. E a demora pode até trazer o perecimento de um ou ambos objetos.

Aliás, destaco dois ditados(brocardos) pertinentes a essa questão filosófica:

"Mais vale um pássaro na mão do que dois voando."

"Quem muito escolhe, acaba sendo escolhido."

E o Reinaldo Azevedo citou o asno na época da escolha do candidato do PSDB à Presidência da República(Alckmin ou Serra). Havia muita demora e indecisão. Na verdade, esse paradoxo do asno é de uso diário.

Sendo pragmático (o pragmatismo é filosofia norte-americana em que algo é verdadeiro enquanto dá certo!), posso asseverar que se os dois objetos parecem iguais, escolho rapidamente um.

Talvez o leitor já tenha passado pela situação em que viu dois lugares para sentar, demorou muito a escolher e acabou ficando de pé!

Do que foi exposto nesse recanto digital, só posso desejar ao amigo leitor que se lembre sempre do asno de Buridan nas tomadas de decisões.