Topoi é uma palavra grega que quer dizer lugar. E em português temos a palavra topologia(estudo do relevo) e tópica, estudo do terreno em que os raciocínios são edificados. Daí temos expressões como: em primeiro lugar ..., em segundo lugar ...
Já a expressão lugar comum é usada quando alguém utiliza, para escorar uma opinião, um argumento muito conhecido.
Digo ainda que princípio é o ponto de partida de um raciocínio.
A partir dessas preliminares, sinto-me à vontade para argumentar e declarar o seguinte princípio:
"O excesso de quantidade muda a qualidade".
Exemplo do princípio:
"Quanto mais se aquece a água, tanto mais ela esquenta. Esse excesso de energia térmica, de repente, muda a qualidade da água: ela deixa de ser líquida e vira vapor."
Outro exemplo:
"A gente estuda um assunto, estuda, estuda e, de repente, aprende o
assunto. A qualidade muda, pois antes éramos ignorantes e agora
sabemos o assunto."
Pois bem, fazendo as devidas mudanças, vamos aplicar esse princípio à encefalização animal.
Ao longo das eras geológicas, apareceram animais cada vez mais complexos, com sistema nervoso cada vez mais sofisticado e o número de neurônios e de suas conexões foram aumentando exponencialmente.
Podemos destacar os mamíferos em geral e os primatas em particular como exemplos de complexidade encefálica. São animais que passaram a ostentar caixas cranianas cada vez maiores e com número crescente de ligações neuronais. E na nossa espécie, a caixa craniana e as conexões neuronais aumentaram tanto, que ocorreu mudança na qualidade da inteligência. Assim, apareceu a inteligência humana.
Ilustrando de outro jeito: ajuntemos e compactemos uma porção de urânio radioativo e nada acontece. Continuando a ajuntar e a compactar e nada acontece. Mas se chega a um ponto da experiência em que, ao mínimo acréscimo de massa(conhecido por massa crítica), ocorre uma explosão nuclear. Se fosse possível, poderíamos ir compactando neurônios e aumentando as ligações entre eles. Chegaríamos a um ponto em que surgiria uma inteligência de outra qualidade.
Ainda sobre a caixa craniana de nossa espécie posso dizer que ela já atingiu o tamanho máximo, limitado pelo canal do parto. Crianças cabeçudas simplesmente morriam no parto pleistocênico. Não havia cesária. Mesmo assim, os bebês de nossa espécie nascem com a cabeça grande, no limite da dilatação! Eis a razão de os partos humanos serem tão dolorosos para as mães.
Desse modo, parece que a nossa inteligência está limitada pelo tamanho do crânio e pela concentração de neurônios e de suas ligações.
Por outro lado, a cesária faria romper o limite do tamanho craniano. Isso me faz lembrar que há bulldogs que só nascem por cesária, devido a suas grandes cabeças. São, portanto, inviáveis em ambientes naturais.
Uma questão costuma levar a outra. Pois qual seria o tamanho mínimo da caixa craniana e da concentração neuronal para que fosse possível o próximo salto qualitativo de inteligência?
E para concluir o post, caro leitor, digo-lhe que, por amor à verdade e pela vontade de trazê-la a luz, estou obrigado a alertá-lo de que a argumentação foi alicerçada em um princípio que talvez não se aplique à encefalização animal.
Se for esse o caso, o leitor estará diante de uma falácia. Restando a este escrivinhador o veemente pedido de perdão.
Notas de rodapé:
- Falácia é uma argumentação que leva a erro o interlocutor. Faz com que ele tome o falso como verdadeiro.
- Devemos tomar muito cuidado com os exemplos(metáforas), pois podem ser ilícitos.
- O falso e a mentira podem seguir por muitos caminhos(Schopenhauer descreveu 38 vias), porém a verdade costuma seguir por apenas um sendero e costuma estar sempre em desvantagem.
- Convido o leitor a refazer a argumentação do post utilizando as expressões topológicas em primeiro lugar, em segundo lugar e assim por diante.